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30 janeiro 2017

Fim de festa

Janeiro chega ao fim e 2017 já perdeu sua magia de brinquedo novo para a maioria de nós. Pisamos lentamente ou com força os caminhos rotineiros e já somos de novo filhos da normalidade. Durante esse período refleti, como é comum, sobre quais são para mim esses caminhos, o que se descortina de novo e de sempre. Levei meses até conseguir olhar para o panorama que se abre à minha frente e talvez mais tempo ainda para dar atenção à luzinha da ideia que insistia em piscar mesmo que eu não lhe desse atenção. Agora percebo claramente o que ela dizia: é hora de fechar o blog.


O Le Paquet foi um refúgio, um alento, um lugar de encontro com a minha criatividade, com a minha escrita e com a criatividade de tantas outras pessoas. Aqui descobri pessoas incríveis, ganhei amizades para além do mundo virtual, aprendi, expandi minhas concepções e produzi muito mais do que eu imaginava possível. Entretanto, como toda festa boa, é hora de apagar as luzes e seguir adiante, com uma sensação de gratidão, aquele calorzinho bom no peito por tudo que foi vivido e compartilhado. Não há melancolia, não há tristeza, apenas a constatação de um novo momento.

Agradeço genuinamente a todos que compartilharam desse espaço comigo. Agradeço as palavras, as trocas. Agradeço aos encontros com vocês e comigo mesma que tê-los aqui me proporcionou. 

E é claro que ainda existem outros espaços em que poderemos nos cruzar. Por enquanto vou estar aqui , aqui e aqui (passe e dê um oi!) E vou esperar alguns dias até tirar efetivamente o blog do ar, para que tenhamos tempo para uma despedida apropriada :)

E que venha mesmo 2017, fevereiro, carnaval, aniversário, novos planos, novas estradas, mas sempre com a tentativa de uma olhar plácido e ao mesmo tempo reverente para a beleza que existe no mundo e em nós. 

Até logo!


















30 dezembro 2016

2017 desejos

Há alguns anos desisti de listas, metas e propostas para o ano novo. Em primeiro lugar, porque sou extremamente desorganizada e as listas me atrapalham mais do que me ajudam. Depois, porque prefiro que meus desejos não fiquem atrelados ao que eu estava vivendo em um determinado momento, mas sigam fluidos e flexíveis, abertos para o que vida me trouxer. Gosto de perceber as mudanças que ocorrem em mim e no meu mundo e constatar as infinitas possibilidades, que vão muito além do que eu consigo enumerar. Pessoalmente, funciono melhor observando o vasto emaranhado de caminhos e sonhos que se desnudam diante de mim sem ideias pré-determinadas. Sei que isso pode parecer confuso para grande parte das pessoas, mas para mim é um presente que me dou: a liberdade de estar aberta e acolher a energia da vida! 



Mesmo que você siga um caminho completamente diverso do meu, ainda assim te desejo esse mesmo universo infinito de possibilidades. E a abertura para perceber a beleza que existe em cada experiência e em cada encontro que a vida nos reserva. Que 2017 seja leve e amoroso conosco!



23 novembro 2016

O que vi por aí - Lille

O Norte da França é sempre motivo de piada entre os próprios franceses. Talvez você já visto isso retratado em filmes, especialmente nas comédias. Enquanto o sul guarda no imaginário de grande parte das pessoas o estilo despojado chique que habita os sonhos de muita gente (pense Cannes, Nice e Saint-Tropez), o norte lembra frio e um sotaque e jeito de ser que poderíamos chamar de caipira; enquanto Paris é...bem, enquanto Paris é Paris, o norte seria desprovido de charme e de cultura. Por tudo isso, minhas expectativas eram baixíssimas ao visitar a cidade de Lille, na fronteira com a Bélgica. Para completar, havia previsão de chuva e ventos fortes, com possível queda de árvores. Nunca fui tão feliz por ter minhas expectativas frustradas!


Para começar, a arquitetura da cidade é uma graça. Parece saída de um conto de fadas. Muitas ruas com casinhas fofas em um estilo que mistura muitas influências (Lille está a 35 minutos de trem de Bruxelas, a uma hora de Paris e 1h40 de Londres) e que funciona muito bem. Além disso, tive o bônus da decoração de Natal, com direito a roda gigante na praça principal, mercado de artesanato natalino e muita iluminação pelas ruazinhas do centro. Eu não sou muito fã de decoração excessiva de Natal, acabo me sentindo meio oprimida, mas ali o clima era de descontração, não sei bem explicar, talvez seja algo relacionado ao clima de cidade de interior. As lojas eram outro espetáculo à parte com suas vitrines super charmosas, sem falar nas inúmeras confeitarias com aquela delicadeza que só os franceses conseguem imprimir em um doce. 




Um outro aspecto que adorei foi a infinidade de ciclovias por todo lado que se olhasse e os vários pontos de aluguel de bicicleta que eram utilizadas tanto por turistas como pela população local. Aliado ao metrô e trens para cidades vizinhas, me passou a impressão de um lugar com um trânsito menos caótico e pensado para ser vivido pelas pessoas em vez de tomado pelos carros. Claro que isso pode ser apenas uma impressão inicial, mas o fato é que as ruas do centro estavam sempre tomadas pelas pessoas (e dava para perceber que eram da região - os turistas eram minoria), tornando a cidade mais viva mesmo nos dias muito frios. 



Na internet também descobri que o Palais des Beaux-Arts de Lille é o museu com o segundo maior acervo da França, perdendo apenas para o Louvre. Chegando lá ainda descubro que o ingresso custa apenas 7 euros e o audioguia é gratuito. Como é boa a vida no interior! Rs. O senhor google também me contou sobre um museu em uma cidade vizinha que funciona em uma antiga piscina pública desativada e esta foi outra descoberta feliz. Além da qualidade das obras, vê-las expostas no antigo espaço de uma piscina art déco tornou tudo mais interessante. Pessoalmente senti que o capítulo cultural da viagem foi bem preenchido. 


Por último, mas não menos importante, a simpatia do povo. Sim, sim, simpatia dos franceses, eu sei... Mas ali não é Paris, não há aquela atitude arrogante ou blasé. Pelo contrário, o que encontrei foram pessoas super simpáticas, animadas, educadas, sempre prontas a ajudar e a tentar entender o meu francês macarrônico com um sorriso no rosto.  Talvez esta tenha sido a grande surpresa de Lille! Existe um ditado francês que diz que quando alguém tem que ir morar no Norte, chora duas vezes: quando chega e quando vai embora. Nestes dias tive um gostinho para começar a entender o porquê. 



E claro que não poderiam faltar os "espólios" da viagem: embalagens do que foi consumido por lá e tickets dos locais visitados, mas esses vão ser detalhados no próximo post, com novas embalagens que estão agora no forno. Não deixe de voltar para conferir e se inspirar ;)










26 outubro 2016

Pare e respire #26 - influência

Recebi há alguns dias uma indicação de um podcast e, como sou louca por eles - são minha salvação na hora de tarefas como lavar a louça - fui direto para a página quando me deparo com o título: como conseguir tudo que você deseja. Eu sei que é preconceituoso da minha parte, mas simplesmente não consegui passar dali. Me pergunto como alguém do outro lado do mundo pode ter a mais remota ideia do que eu desejo e ainda me ensinar o caminho das pedras. Mas, por outro lado, consigo perceber claramente porque este título pode ter um apelo tão universal. Estamos aqui neste planeta o tempo todo em busca de significado e, nesta busca, em algum momento da nossa trajetória confundimos isso com influência e importância. Todos nós. Ponto. 
Por algum motivo - acredito mesmo que seja um motivo evolutivo, selecionado pela natureza - nós nos importamos muito com o nosso poder de influenciar pessoas. Nosso tempo congregou esse fenômeno na figura do "digital influencer" (que antigamente eram as estrelas de rock), aqueles que têm a vida que todos querem ter, que conhecem os lugares que todos gostariam de ir, que ganham de presente tudo que desejamos comprar. É o sonho da Cinderela moderna: ser paga para ter uma vida virtual de sonho e ser a nova guru do "como fazer amigos e influenciar pessoas". 


O ponto chave da última frase é a palavra "virtual". Uma vida virtual de sonho. E sim, por mais inalcançável que possa parecer, existem passos muito concretos que ensinam a ter essa tal vida, desde que se esteja disposto a pagar o preço, como em todas as escolhas que fazemos. O "único" aspecto que fica de fora dessa conta é a parte da vida que não é virtual. A parte do olho no olho, a parte da presença, do sorriso quando não tem câmera, a parte da conversa sem interesse outro que não seja ouvir; a parte do tédio, de abraçar o tédio, porque ele também faz parte da existência humana.
O que me intriga nesse modelo é que ele vende influência como se fosse algum produto exclusivo pelo qual precisamos batalhar, sob pena que continuarmos sendo reles mortais. E transforma em segredo a verdade mais simples de todas: todos nós já somos influentes. Todos nós. Ponto. 
A nossa existência, a nossa interação com os outros, tudo isso influencia as pessoas ao nosso redor. O que falamos, como falamos, o que desejamos, a quem desejamos, o que sonhamos, o que concretizamos, absolutamente tudo que somos e fazemos influencia o mundo. Quando percebermos isso como humanidade, talvez passemos a nos preocupar mais com nossas pequenas ações concretas e diárias do que com estratégias para alcançar o que já nos pertence, esquecendo o aqui agora no caminho. Talvez quando nos enxergarmos importantes o suficiente, passaremos a ter mais cuidado com nossas atitudes e expressões cotidianas, porque entenderemos seu poder. 







  

12 outubro 2016

Presente no dia das das crianças

Um feriado dedicado a um olhar maravilhado para o mundo, uma celebração da inocência e abertura para o novo. uma ode às perguntas e questionamentos, tenham eles respostas ou não. A data que hoje é mais conhecida pelo dia das crianças do que por sua concepção original poderia nos instigar a uma observação mais atenta das lições que os mais novos têm a nos oferecer. E ainda sobre o nosso papel nesta troca: o que estamos "ensinando", o que estamos priorizando, dizendo que é importante ou essencial todos os dias com nossas escolhas e atitudes. 



Fantasio também que, em vez de presente no dia das crianças, poderíamos nos propor a estar mais presentes no dia a dia das crianças, com a mesma presença inteira e sem reservas que elas nos dedicam. Poderíamos destinar esta data a sermos guiados por elas, despidos de preconceitos e de respostas, apenas absorvendo a enormidade do mundo em êxtase, sem os julgamentos e defesas que a nossa caminhada nos forçou a desenvolver. Ou quem sabe pudéssemos comemorar reverenciando a nossa própria criança interior; acalentá-la e mimá-la com o presente do nosso acolhimento e aceitação, resgatar seus interesses e dores, dizer a ela que vai ficar tudo bem. 

Uma data comemorativa é sempre uma oportunidade de reflexão, que pode ser tão profunda quanto escolhermos. A roda que gira o mundo vai nos empurrar para a superfície sempre, mas a decisão da direção a seguir é uma escolha individual. 

Feliz dia das crianças!  


19 setembro 2016

Pare e respire #25

Andamos todos muito apressados, como se houvesse sempre algo muito importante a fazer, como se não fôssemos todos morrer na próxima meia hora, alguma próxima meia hora qualquer. A natureza nos concedeu essa capacidade, de nos esquecermos da fragilidade e volatilidade da vida - que poderia ser paralisante e tirar nossa capacidade de planejar, imaginar e sonhar. Mas a natureza, sábia como só ela pode ser, distribuiu ao nosso redor inúmeros lembretes, para que nos esquecêssemos, mas não tanto. É assim que nos chega a morte de alguém conhecido, como uma lembrança da nossa própria mortalidade.


Esta lembrança é doída, nos confronta com o que estamos vivendo, com as nossas escolhas e se elas fazem jus ao que acreditamos ser uma vida que vale a pena. Se eu morresse amanhã, minha vida teria tido um sentido? Eu teria respeitado os valores que considero mais importantes? Eu estaria em paz com a pessoa que eu fui e os caminhos que segui? Este é um momento mágico! Se conseguirmos nos afastar um pouquinho da nossa dor, podemos vislumbrar a chance que a vida nos dá de reavaliar e recomeçar. 
O mais incrível é que, na realidade, esta chance está ali o tempo todo. A qualquer momento podemos questionar o roteiro que criamos para a nossa existência. E de fato nos impactarmos com a resposta! No fundo, nós sabemos quais são as perguntas necessárias. Mas, em geral, não há tempo para elas. É que andamos todos muito apressados, como se houvesse sempre algo mais importante a fazer, como se não fôssemos todos morrer na próxima meia, alguma meia hora qualquer.    

Uma semana bem vivida para você! 






    


15 setembro 2016

Escritos aleatórios #3

Meus escritos aleatórios às vezes passeavam por aqui, mas a verdade é que a escrita mais poética, essa minha antiga companheira, não tinha muito espaço para além dos meus arquivos pessoais. Muitas vezes seu conteúdo não combina com o blog então as palavras ficavam guardadas sem verdadeiramente ver a luz do dia. Ontem finalmente criei uma página no Facebook para publicar tudo que não cabe aqui. Se você já segue o blog talvez aprecie esta minha outra face, nem tão diferente assim ;)

Abaixo segue um gostinho do que você vai encontrar. Te aguardo no Escritos Aleatórios! Quando você aparecer, não deixe de dar um oi! Vou adorar te ver por lá! 


Intimidade

Vamos brigar pela louça na pia, pela cama desfeita até o meio-dia, pelos respingos no espelho do banheiro, assim não sobra tempo para falar de incertezas.
Vamos discutir pelo móvel empoeirado, pelo lixo abarrotado, pela roupa amontoada pelo quarto, assim não sobram olhares para a nossa desordem interna.
Vamos reclamar da camisa malpassada, da toalha molhada, do sapato que espalha lama pela sala, assim não sobram palavras para encarar as feridas abertas.
Vamos repetir e desgastar, corroer e repisar até que se esgarce o tecido de todas as trivialidades íntimas. Quem sabe assim a nossa trivial falta de intimidade continue preservada.




12 setembro 2016

Como receber bem à moda canadense

Uma coisa que eu sempre gostei na nossa cultura brasileira é que os encontros acontecem muito em torno da uma boa mesa. O afeto e cuidado com o outro, para nós, parece estar intrinsecamente relacionado com comida e fartura. Uma mesa repleta de pessoas e delícias sempre aqueceu meu coração e por um tempo eu acreditei que esta era a "melhor" (e até mesmo a única) maneira de receber bem. Mas, ao conhecer outras culturas, descobri também outras formas de lidar com essa relação afeto x comida.


Aqui em Lisboa tenho uma amiga canadense (do lado francês, não sei se isso tem alguma influência) e sempre que ela me convida para sua casa fico fascinada com seu modo particular de receber. Logo ao chegar percebe-se o carinho e cuidado de quem apronta a mesa pensando no outro. Peças delicadas compõem um visual aconchegante. Mas o que me encanta mesmo é a pegada minimalista. Esse modo de dispor poucos itens à mesa, de compor com a comida como se ela fizesse parte da decoração. Num dia, fatias de torta de amêndoa e frutas da estação. No outro, mini-bolo de mel e maracujás. Tudo leve, suave e afetuoso. Mais que suficiente para uma tarde inteira de boa conversa. 




Ali percebo que o afeto está presente, que a fartura está presente tanto quanto nas nossas mesas repletas, mas de um jeito completamente novo para mim, que eu não tenho palavras ainda para ilustrar, mas que definitivamente pode ser sentido. Me pego a refletir sobre o significado de tudo isso, do muito, do pouco, do farto, do afeto. 


O que me cativa são essas novas perspectivas - mesmo sobre coisas tão simples - que nos impulsionam a desapegar das nossas certezas e enxergar as mesmas coisas por uma ótica diferenciada. E sigo fascinada pela diversidade de possibilidades de interpretar o mundo e as relações. 

Uma semana de muita fartura para você!








 

05 setembro 2016

A casa da gente

Nenhum lugar do mundo tem o mesmo cheiro que a casa da gente. Mesmo que ela passe meses fechada, ao abrir a porta a familiaridade invade nossos sentidos antes mesmo que possamos nos dar conta. Estar aqui de volta tem esse gosto. É um voltar para casa, familiar e ao mesmo tempo inesperado, porque nunca sei com que tipo de troca e encontro vou me deparar. Mas sei bem que é sempre uma doce acolhida! 


Desse tempo distante há muito a ser compartilhado, mas, por hoje, fica apenas o abraço caloroso da chegada. 





15 julho 2016

A vivência de um instante + blog de férias

Para compreender a vivência de um instante é indispensável deixar assentar o sentimento. É imprescindível esfriar as impressões, perceber como se amalgamam na pele. Esperar para ver se entram nos ossos ou se viram camada de poeira que aos poucos vai sendo soprada para além. É necessário aguardar pelo que ficará na retina depois de apagado o brilho ofuscante do momento presente, o que será memória e o que será fumaça. É preciso esperar pelo tempo das necessidades, em que as lembranças se tornam mais doces e menos fugidias. O hoje é intensidade que a consciência não abarca, é impressão cuja profundidade nos escapa. São os vestígios do que foi e todas as suas reminiscências impregnadas que compõem a experiência.




Chegando de viagem, me preparando para outra e ainda processando tudo que vivi! Volto logo!





PS: Lá no Instagram tem um pouquinho do que meu olhar anda captando por aí! Passa lá no @le.paquet.blog  :)




04 julho 2016

pare e respire #24 - caminhos

Não vamos falar dos caminhos já percorridos, do reconhecível e seguro; aqueles que fingimos não ver que trazem desassossego disfarçado de estabilidade, falta revestida de rotina, ferida maquiada de normalidade. Não vamos falar das mesmas cores nem dos mesmos passos. Nem das mesmas pedras nem das mesmas dores. 
Não vamos nos perder nas lembranças que se repetem exaustivamente até que não se possa identificar se são nossas ou inventadas por outros – ou por nós.Vamos, sim, falar do que ainda não existe, do que é sonho e utopia e anseio. De tudo que é inviável estendido ali à frente como um infinito implausível. 


Vamos falar do impraticável, do irreal, do inexequível, de tudo que não é matéria de tratados ou estudos, mas que habita um tempo-espaço etéreo que chamamos possibilidades; um universo tão vasto que nos parece obrigar sempre às mesmas repetidas escolhas pelo simples receio do que não é conhecido. Existe, porém, sempre um momento em que nos permitimos um vislumbre dessa imensidão inexplorada. E se o que enxergamos se conecta com nosso desejo mais íntimo, por vezes surge a coragem para saltar no vazio esperando ser aparados pela rede que contecta nossos sonhos ao mundo palpável. Talvez seja especificamente aí que passamos a verdadeiramente existir.

Uma semana com muitos caminhos floridos para você!













28 junho 2016

O que nos nutre

A gente demora muito tempo para se dar conta que o que nos nutre não muda ao longo da vida. Quando crianças nos abastecemos naturalmente de cafuné, silêncios empáticos, perfume de bolo recém-saído do forno espalhado pela casa, histórias compartilhadas que explodem em gargalhadas, palavras da mãe sábia (não necessariamente a nossa), olhos que nos enxergam...


Crescemos e passamos a compreender – com toda a lógica – que precisamos de mais. Afinal, um adulto não pode se nutrir das mesmas coisas que um bebê. E peregrinamos pelo mundo à procura desse mais, esquecendo apenas que a energia que nos move não é regida pela lógica. Ela transcende nossa compreensão objetiva e nos alimenta tal como fazia no início da vida.

O que nos nutre não muda porque nossa essência é a mesma. Por trás das camadas de objetividade, pensamento, lógica e entendimento racional existe um ser ávido por conectar-se da maneira mais básica e primária. O sentido da nossa humanidade, a conexão com o outro costurada pela linha invisível do amor, não se submete a leis de física, matemática, menos ainda às leis humanas. O que nos sustenta verdadeiramente é simples e acessível, está a uma palavra ou um toque de distância. Como, aliás, sempre esteve. Fomos nós, com nossos fundamentos, ideias e razão que nos distanciamos. E depois ficamos uma vida inteira questionando porque estamos sempre tão sedentos.


"Tudo que se passa no onde vivemos é em em nós que se passa. Tudo que cessa no que vemos é em nós que cessa".  Fernando Pessoa



15 junho 2016

pare e respire #23 - despertencimento

O dia dos namorados passou e este blog, dedicado a presentes e afins, não teve um único post dedicado ao assunto. Desde o dia das mães percebi essa lacuna que se formou nas datas que são comemoradas em dias diferentes no Brasil e em Portugal. A lacuna não fica apenas no blog, mas ressoa especialmente em mim. Começa a parecer estranho comemorar o dia dos namorados em um dia em que ninguém pensa nisso. Mas ainda é muito mais estranho comemorar no dia 14 de fevereiro, dia que faz sentido para todos ao meu redor, mas não para mim. Não que seja tão importante assim não comemorar datas comerciais. Apenas observo o que isso reflete. Parece que, após dois anos habitando terras lusitanas, começo pouco a pouco a me desgarrar das tradições brasileiras, sem efetivamente me apropriar das tradições locais, o que me coloca em um estado interessante que eu gosto de chamar de despertencimento.


Pode parecer difícil, até mesmo doloroso, essa coisa de despertencer, porque nos tira da familiaridade, do que é conhecido e do que julgamos fazer parte de nós. É o momento fugaz (e, se não estivermos atentos, imperceptível) em que deixamos de ser o que éramos, de acreditar no que acreditávamos, mas ainda não sabemos o que exatamente iremos nos tornar ou no que passaremos a acreditar. Por isso, carrega também um quê de liberdade, É como se fosse uma chance de escolher novamente as ideias, crenças e atitudes que constituem nossa maneira de estar no mundo. Pode ser visto como uma perda ou como um privilégio, dependendo do nosso olhar (ou da tpm!).


Despertencer é, em essência, um exercício de desapego. Para alguns é até fácil abrir mão de objetos ou lugares. Mas o que fazer quando estamos falando da nossa história? Ou das nossas ideias, propósito, projetos? Ou das pessoas? O que fazer quando percebemos que é hora de despertencer de um relacionamento, seja ele amoroso ou de amizade? Estas possibilidades são constantemente colocadas diante de nós, e são tão claras ou turvas quanto permitirmos que sejam. No fundo, sabemos a hora exata de despertencer. Percebemos quando acontece, aquele momento efêmero em que é possível ver que tudo mudou.


Mas... (tem sempre um mas!) despertencer é desconfortável. É incômodo, trabalhoso, muitas vezes embaraçoso ou inoportuno. Somos psicologicamente vinculados àquilo que acreditamos que somos e às relações que acreditamos que precisamos. Transformar isso pressupõe uma força que aparentemente dirigimos contra nós mesmos. Tudo para jogar por terra aquilo que parece que passamos a vida inteira construindo, que é a sensação de fazer parte de algo, de um meio ou da vida de alguém. Parece contraprodutivo, e é! Só que no meio desses caquinhos está a oportunidade única de deixar para trás o que não deveria estar ali, o que serviu mas já não serve mais, o que pesa. Despertencer... e escolher a si mesmo mais uma vez!





01 junho 2016

Pare e respire #22 - existir em essência

A partir do meio da tarde o sol invade a sala, adentra sem cerimônia, ofusca, cobre tudo. Até porque aqui não há cortinas. Acho que sempre preferi a verdade ofuscante à realidade filtrada. Dizem que em algum tempo o sofá estará desbotado, o piso queimado, as cores do quadro alteradas, mas eu não seria eu se não quisesse as marcas de que aqui há vida, há luz que entra todos os dias, há energia e movimento, além de, claro, dias cinzas. O sol vai tomando conta e segue seu caminho natural todos os dias, sendo aquilo que é, independente do que eu sou ou acho dele. Ele apenas existe em essência e não posso deixar de notar que é isso que muitas vezes não vemos em nós. A nossa existência, a forma como nos movemos no mundo muda tudo ao nosso redor. É uma chama que existe apenas porque nós existimos. Cada palavra, gesto, atitude transforma o mundo. Mesmo insconscientemente, contribuímos para o equilíbrio (ou desequilíbrio) de tudo que nos cerca. Mas estamos tão acostumados a ser quem somos que o resultado das nossas ações parece ínfimo, pequeno, inútil até.



O interessante é que esse sentimento não é novo, não é próprio do momento em que vivemos como muitos insistem em afirmar. Desde que a humanidade conseguiu suprir suas necessidades básicas de sobrevivência vivemos o dilema interno de reconhecimento. Nossos dramas continuam os mesmos desde os tempos do Egito antigo até a era informatizada de hoje. Todos, no fundo, buscamos validação para o que somos: corremos atrás de dinheiro, beleza, poder, amigos, parceiros, de sermos desejados, queridos ou até temidos sem percebermos que o que somos é mais que suficiente. Não é preciso validação, não é preciso reconhecimento, não é preciso ser importante, basta ser. Entretanto, apesar da universalidade do sentimento, o aprendizado desse desemaranhar-se do que não importa é absolutamente pessoal. Alguns parecem alcançar essa percepção mais rapidamente, mas nós, pobres mortais, geralmente levamos uma vida – ou, pelo menos, metade dela – apenas para chegar à constatação de que o que passamos tanto tempo buscando não vai preencher ou solucionar nossas questões. A maturidade de nos apresentarmos ao mundo de acordo com a nossa essência chega a dura penas, e, paradoxalmente, faz com que nos posicionemos frente aos outros de uma maneira única que gera - veja bem - validação e reconhecimento!

 Bem, é o que dizem! Eu ainda estou no meio do caminho :)

06 maio 2016

Como amar uma mãe

Existe um momento na nossa jornada como filhos que entendemos que nossa mãe não é super-heroína. O momento em que a gente aprende (a duras penas) que ela tem paciência limitada, pensamentos retrógrados, frustrações descontadas em nós ou projeções sem sentido. Em maior ou menor grau, é um choque. Alguns nunca se recobram dele; outros, passado o susto - ou a raiva, ou a decepção - chegam ao momento crucial de perdoar. Perdoar as falhas, perdoar os momentos em que aquela mãe não foi compreensiva como gostaríamos, ou empática como acreditávamos. Perdoar seu modo de ver as coisas, perdoar sua imperfeição. Para alguns, esse é o fim do caminho, uma forma positiva de lidar com essa relação. Para outros, há uma compreensão além: não é preciso perdoar a imperfeição de uma mãe, é preciso acolhê-la, aceitá-la em sua humanidade, em seu esforço de ser a melhor possível mas ainda feita de carne, osso, sentimento, lágrimas, gargalhadas, frases inapropriadas, encantamento, frustração. Amar uma mãe é fácil, difícil é amar essa pessoa em todas as suas idiossincrasias, difícil é enxergar que ela é feita da mesma matéria e dos mesmos sonhos que todos nós, difícil é compreender que ela é gente e ainda assim amar todas as partes tortas que fazem parte do kit básico de ser gente nesse mundo. Amar uma mãe é fácil, difícil é aprender a se relacionar com essa mulher em sua inteireza, admirar sua força e sua visão do mundo além do filtro do olhar de filho, e ainda ser grato pela oportunidade ímpar de ter ao lado alguém que, pelo amor ou pela dor, nos empurra sempre a crescer.   


26 abril 2016

Paredes mágicas em Lisboa

Quando as pessoas pensam em Lisboa e em Portugal de modo geral surgem imagens de tradição, de castelos e muralhas, de arquitetura medieval ou renascentistas, mas, acredite, Lisboa é muito mais que isso! É uma cidade viva em que o novo e o antigo convivem, se complementam e se transformam. Uma das minhas atividades favoritas é simplesmente caminhar pela cidade e me deliciar com esse delírio visual.


 Por aqui há sempre iniciativas inusitadas, como das réplicas do Museu de Arte Antiga que foram distribuídas por muros da cidade. Essas abaixo, junto à famosa vaquinha da Cow Parade, formam um conjunto interessante. 



Há também uma estética muito em alta que promove o encontro da arte (muitas vezes em lugares antes abandonados) com a natureza. E por vezes fica a dúvida se esse encontro é fruto de trabalho ou é apenas a natureza em um movimento de (re)ocupação. Ou seja, às vezes é difícil distinguir se é arte ou abandono. Talvez seja melhor não tentar rotular e apenas apreciar!




Por onde quer que se ande há essa mistura entre o novo e o antigo, cores vibrantes ladeando azulejos tradicionais, novos murais por entre a arquitetura clássica pombalina ou projetos incríveis como os dos artistas Vhils e Pixel Pancho que incorporam a decadência do local (como paredes descascadas) ao conjunto de suas obras.   





A vida artística que pulsa nessa cidade me surpreende todos os dias. Se você ainda pensa que Lisboa é pura tradição, pense outra vez!

Tenha uma semana vibrante!
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14 abril 2016

Pare e respire #21 - você tem medo de quê?

Adoro a frase do Woody Allen que diz: "Talento é sorte; o importante na vida é ter coragem." A criatividade e facilidade que cada um de nós temos em uma determinada área que faz nossos olhos brilharem muitas vezes é esmagada por esse companheiro que não conseguimos despistar, especialmente quando nos colocamos em um lugar de vulnerabilidade (e, acredite, mostrar ao mundo algo que criamos é um lugar de vulnerabilidade): o medo.  

Medo é um dos nossos instintos mais primários. Aprendemos cedo a reconhecê-lo e a dar ouvidos a ele porque, em última instância, é por sua causa que todos nós estamos vivos até hoje. Foi ele que nos protegeu nas mais diversas situações - como humanidade e como indivíduos - e nos permitiu sobreviver. Entretanto, esse componente evolutivo que está entranhado no nosso cérebro não consegue distinguir muito bem as diferenças de risco: ele aparece quando andamos sozinhas por uma rua escura, quando vamos dar uma palestra, quando estamos prestes a nos apaixonar ou a começar um novo negócio. Quando qualquer coisa pode dar errado, o medo aparece rapidinho como um manto protetor e, como nós o conhecemos bem e lidamos com ele há tanto tempo, sentir medo torna-se paradoxalmente confortável. 


E assim deixamos de apresentar ao mundo o melhor de nós, aquilo que desperta a nossa paixão e encantamento, aquilo que nos faz passar horas criando ou pesquisando sem sentir o tempo passar, aquilo que expressa o que verdadeiramente somos, seja por meio da escrita, do bordado, da fotografia, da cozinha ou da matemática. 

Existe hoje uma ideia generalizada de que é preciso vencer o medo para seguir em frente com qualquer projeto, mas eu gosto muito de um outra abordagem apresentada da autora Elizabeth Gilbert. Em seu livro Grande Magia ela fala que o medo está sempre com ela durante seu processo criativo - como eu disse, aquele companheiro que não conseguimos despistar - e que ela reconhece isso, aceita isso, mas não permite que seja o medo que tome as decisões. Ela usa a metáfora de um carro em que ela está ao volante e o medo no banco do trás. E não apenas isso: ele não pode indicar o caminho, tocar no mapa, decidir onde parar e nem mesmo escolher a rádio. Essas decisões são todas dela, ou minhas, ou suas! O medo continua lá mas não impede de seguirmos nosso caminho.



 Qualquer que seja a expressão da nossa criatividade ela vai estar mais bem cuidada se tiver espaço para existir. As críticas, problemas e rejeições vão acontecer, como acontecem para todos. Mas a realização de ter criado algo é insuperável, como acontece para aqueles que vão além do talento e encontram coragem.







06 abril 2016

Pare e respire #20 - encontros difíceis

Algumas pessoas que encontramos nessa vida irradiam luz e alegria ao primeiro olhar. Estar com elas é leve, é fácil, natural. Com outras o encontro parece que demora a acontecer e, como vivemos em um mundo imediato, um mundo em que tudo está ao alcance de um clique, o que fazer quando não se “clica” logo na primeira vez? Uma palavra dita no timing errado (ou mesmo não dita) pode mudar todas as nossas expectativas sobre o outro.

Às vezes não sabemos pontuar precisamente o porquê ou quando o incômodo apareceu, mas o interessante é refletir como isso diz muito mais de nós do que outro. Encontrar alguém que nos tira do sério ou que nos deixa desconfortáveis em algum nível pode se tornar uma grande fonte de aprendizado e desevolvimento. Em última instância, dar uma segunda chance a alguém que não gostamos pode significar dar uma segunda chance a nós mesmos, para partes nossas que ainda não compreendemos bem ou que temos dificuldade de lidar.
Claro que isso não significa incentivar aproximação com pessoas destrutivas que claramente são tóxicas para a nossa vida. Estou falando de coisas muito mais sutis, de sentimentos que muitas vezes não gostamos de ver em nós, mas que estão lá e que algumas pessoas fazem vir à tona com uma facilidade incrível! E então nos encontramos frente a frente com uma oportunidade única de autodesenvolvimento sem recorrer a terapia ou práticas espirituais. Uma porta de entrada que o nosso cotidiano nos dá para entendermos um pouco mais de nós e, de bônus, praticar as virtudes da generosidade e paciência.

Visto assim, cada encontro que temos nessa vida, por mais duro ou incômodo que seja, é um presente. Talvez esta seja uma perspectiva utópica – vamos combinar que é difícil encarar o colega de trabalho mal-humorado todos os dias como um presente - mas talvez seja a utopia que nos empurre a crescer, a acreditar que podemos evoluir sempre sem depender de tempo ou dinheiro, apenas existindo na nossa vida cotidiana da melhor maneira que conseguimos.     

30 março 2016

Pare e respire #19 - amor sem vírgula

Escritos aleatórios, dez segundos de pausa para respirar beleza e simplicidade no meio da semana:



Amor sem vírgula

              Escreva, amor. Suas dúvidas, seus medos, o peso de tudo que nos une e separa do chão.

              Escreva amor. Sem dúvidas, sem medos, a força de tudo que nos une e separa do chão.











28 março 2016

Inspiração para a semana - o que você faz?

Quando conhecemos alguém, após saber o seu nome, a pergunta inicial mais comum é : o que você faz? E nós, todos nós desse planetinha azul, fazemos muitas e muitas coisas, mas  não respondemos a esta pergunta dizendo que fazemos voluntariado aos sábados, ou que preparamos um peixe como a pessoa nunca viu, ou que cantamos em um coral, ou que frequentamos o templo budista, ou que corremos oito quilômetros todos os dias, ou que levamos jeito para organizar malas. Não. Nossa resposta vai girar em torno do trabalho, atendendo à necessidade tão humana de compartimentar para compreender. Assim, nos compartimentamos e nos oferecemos dentro dessa caixinha para o outro. 


E não há problema algum nisso, mas é curioso que esta seja atualmente a principal forma de nos projetar na sociedade. Eu tenho curiosidade de saber em que ponto da nossa história como humanidade nosso valor se associou tão intrinsecamente ao nosso trabalho. Será que na Idade Média a primeira pergunta quando se conhecia alguém era sobre o que ela fazia? Será que isso era o que identificava alguém? E eu quero enfatizar o "identificar" nessa história. Nossa identidade está tão intimamente ligada ao nosso trabalho que a maioria das pessoas reconhece um dia bom de acordo com um dia bom no trabalho, e pior - do meu humilde ponto de vista - identifica o seu valor como pessoa com o valor do seu trabalho ou com quão bem seu trabalho se desenvolve no momento. 

Apesar de termos racionalmente uma percepção de que somos muito mais do que o nosso trabalho, o fato é que muitas vezes permitimos que ele seja a medida do nosso valor pessoal. Então, quando o trabalho vai bem, quando as coisas acontecem, quando recebemos promoções, quando nosso negócio decola, nos sentimos bem-sucedidos não apenas em um nível profissional, mas também pessoal. Por outro lado, se as coisas não correm como gostaríamos no nosso emprego ou na nossa empresa parece que fracassamos como pessoas. E o detalhe mais importante é que na maioria das vezes nem nos damos conta disso, apenas nos deixamos levar por esse sentimento de não estar fazendo o suficiente, de não ser bom o suficiente. 



Esse não é um ciclo fácil de quebrar! Penso que é preciso que tenhamos lembretes em nossas vidas de que somos mais. O meu lembrete pode ser uma meditação diária, o seu pode ser o tricô, o da minha vizinha pode ser o sorriso da filha, o da sua pode ser a mãe doente. Lembretes de que somos de uma riqueza e de uma imensidade sem iguais. Lembretes de que todos nós temos algo de belo e de bom para oferecer, que é da nossa própria natureza, como um dom que pode e deve ser compartilhado em prol de tornar o mundo um lugar melhor. E o mundo se torna um lugar melhor por pessoas que realizam muito, mas, em sua maior parte, ele se torna melhor pela generosidade de formiguinhas, como eu você, sete bilhões delas, trabalhando muito além do escritório e descobrindo o real valor que há no outro. E em nós!

Um linda semana para você!   

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