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20 maio 2015

Palavras intraduzíveis

Sempre fui amante de palavras e significados. Tenho mania de procurar no dicionário palavras conhecidas apenas para me perder nos seus inúmeros sentidos, nas suas origens e usos. Adoro palavras que derretem na boca, que me fazem sentir dentro de um sonho, que teoricamente são as mesmas que se encontram disponíveis a todos, mas que nas mãos de alguns transformam-se em matéria-prima de teletransporte para outro universo, em sentimentos que a gente nem sabia que tinha, em suspiros ou lágrimas, em obra de arte.

Ontem conheci o trabalho da artista britânica que Marija Tiurina, que ilustrou lindamente palavras que não têm tradução em vários idiomas. E a língua portuguesa tem o seu representante por lá. Não, não é saudade. A palavra escolhida foi cafuné.



Cafuné faz parte do universo de qualquer brasileiro, toda criança sabe o que é um cafuné! Me dá um certo prazer pensar que essa palavra seja só nossa, em sua singeleza e amorosidade, e que talvez ela se espalhe um pouco pelo mundo, como aconteceu com a palavra saudade. Gosto de pensar que ela reflete um pouco da alma brasileira no que ela tem de mais bonita; no que é aconchego, carinho, cuidado, atenção. Um gesto que traduz amor e que é intraduzível para outras culturas, por isso tem que seguir pelo mundo sem se despir da sua identidade brasileira. É romântico, utópico e parcial, mas de que adiantam tantas belas palavras se elas não puderem trazer um pouquinho de sonho e poesia para a realidade?

Ao observar todo o projeto, me deu uma certa inveja do espanhol por ter uma palavra que significa o misterioso poder que uma obra de arte tem de nos tocar profundamente. Diversas vezes estive emocionada diante de um trabalho e acho fascinante que agora eu tenha um nome para dar a esse sentimento (sim, eu vou me apossar dessa palavra): duende.


Em um mundo tão centrado em imagens como o de hoje, muitos já decretaram a morte da escrita e das palavras, mas eu sigo me maravilhando com esse universo e sinto que ele pulsa hoje mais do que antes. Hoje eu tenho acesso a mais textos bem escritos do que antes, porque o grande artista está disponível a um clique mesmo que ele ainda não seja grande, mesmo que as editoras não se interessem, as palavras pulsam em novas combinações, em novos formatos, em apropriações muito pessoais e seguem deslumbrantes.


Uma quarta repleta de belas palavras para você!


PS: para o título desse post veio a dúvida: "intraduzível" realmente existe em português? O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa disse que sim e eu acredito! Mas o fato é que, mesmo se não existisse oficialmente, você teria entendido o que eu queria dizer com ela! Ah, a beleza das palavras...

PS2: Veja todo o trabalho dessa série aqui ou uma boa parte com tradução aqui.

13 maio 2015

Mantenha contato

Quando se é criança, as amizades fluem tão fácil! Até perseguir uma formiga é motivo para se ganhar um amigo (foi assim que o melhor amigo do meu filho virou o melhor amigo do meu filho. Tocou a campainha da nossa casa porque a formiga que ele estava perseguindo tinha entrado lá). Literalmente qualquer coisa é motivo para se iniciar uma amizade que pode durar alguns dias ou muito anos. Na adolescência os amigos viram as pessoas mais importantes do mundo, mas logo aparece o grande vilão que vai destroná-los: o tempo. Crescemos e ter tempo para trabalho, estudo, companheiro, filhos não é tarefa simples. Os amigos, então, vão caindo de posição na lista de prioridades.


É preciso uma dose extra de esforço e talvez um pouquinho de fantasia e inocência para manter contato. Alguém precisa dar aquele primeiro passo de ligar, mandar uma mensagem, convidar para um papo que não seja virtual, um café além dos likes. Uma vez uma amiga disse acreditar que as pessoas fantasiam que ligaram para o outro, dizem que tentaram (e de fato acreditam nisso) e sentem como se já tivessem feito "a sua parte"; mas o fato é que o telefone não tocou e o outro não soube de nada. O procurar, a busca por contato ficou apenas na cabeça daquele que (não) o fez. 

Pessoalmente, tenho um grande apego às minhas amizades. Não gosto de sentir que deixei alguém pelo caminho, mas muitas vezes isso é inevitável perante o movimento da vida. E por causa dessa minha preocupação (para não dizer neurose) desenvolvi algumas estratégias para conseguir manter contato. Uma das minhas preferidas é o ritual de se escrever. Gostaria de dizer que troco cartas frequentes com várias amigas mas isso não é bem verdade. Bom, talvez sim. se considerarmos o email como uma carta. O fato é que tenho grupos de amigas e temos essa proposta de nos escrevermos uma vez por mês. É  compromisso com data marcada, do gênero pagar conta de luz ou telefone, tem que estar anotado na agenda ou no alarme do celular. Não pode esquecer! 


E é quase a mesma alegria que tinha quando recebia cartas das amigas pelo correio. Quero abrir o email correndo e devorar todas as notícias. Mudança de casa, de emprego, de marido... Carro que bateu, filho que cresceu, sonhos nascendo ou morrendo. Enfim, um pouquinho da vida de cada uma se desenrolando bem ali à minha frente! Para mim, um pouco de beleza no meu dia - mesmo quando as histórias são tristes - pois a cada vez que recebo essas notícias sou relembrada da preciosidade que é ter amizades verdadeiras que duram uma vida inteira. Bem clichê, eu sei, mas nem por isso menos real!

E você, me conta o que faz para manter contato com as pessoas queridas?






04 maio 2015

Pare e respire #13 - O espaço entre

De manhã cedo recebo a notícia de que uma grande amiga está em trabalho de parto. Um parto que ela não apenas sonhou e desejou, mas batalhou muito para acontecer. E meu coração está em festa por este momento! De tarde vem a notícia de um amigo que precisa voltar ao hospital por um câncer que reincidiu. E meu coração está em pedaços por essa experiência dolorosa e pela incógnita do que virá. Essas vidas muito amadas estão prestes a mudar completamente e eu me encontro neste lugar entre os dois, observadora da intensidade da luta que é a chegada da vida e a chegada da morte. A intensidade desses eventos únicos põe em perspectiva todo esse "espaço entre", o que nos acontece entre um e outro. O que nos preocupa, nos perturba, nos toma tempo, nos entristece ou nos enfurece nesse lugar - o espaço entre - muitas vezes perde todo o sentido quando nos deparamos com as pontas da história. 


Vida e morte, começo e fim, os eventos que deveriam ser a coroação do que fizemos entre um e outro são muitas vezes aterrorizantes. Talvez porque nos mostrem o quanto nos perdemos pelo caminho. Ou o quão pouco honramos a dádiva que é estar respirando dia após dia. Ou porque nos confrontem com os medos que insistimos em fechar num quarto com chave. Ou ainda porque nos enxotem do confortável esconderijo onde nos abrigamos. Um nascimento ou morte iminentes bem ali ao lado são como lampejos do que está por realizar, pequenas faíscas de sonhos e possibilidades que existem em todos nós. Podemos escolher que elas desabrochem por entre as fendas do asfalto da realidade. Ou não. 

Uma semana de muita vida para você!


  

27 abril 2015

Inspiração para a semana - desconfie quando a sanidade dói

Um dos paradoxos da nossa existência é buscar singularidade enquanto parte da normalidade. Todos queremos ser únicos e reconhecidos na nossa individualidade, mas, se algo destoa da curva normal, buscamos logo uma solução para voltar ao padrão, de preferência em forma de pílula. Que seja rápido, indolor e não me faça pensar muito no assunto! E seguimos nosso caminho nos equilibrando entre esses dois eixos. Para alguns, esta é uma conciliação viável; para outros, é um jogo tão difícil que é preciso optar por um dos lados. E então somos reduzidos a duas possibilidades: ou escolhemos viver à margem da sociedade e carregamos conosco a resiliência necessária a essa alternativa, ou encaixamos nossos sonhos dentro das engrenagens da normalidade.


A normalidade - esse conceito abstrato com o qual podemos nos identificar ou nos afogar - traz como sinônimo a sanidade, outro conceito abstrato mas que geralmente possui limites mais bem delineados em nossa percepção. Diferentemente da normalidade, pode-se dizer que todos buscamos sanidade em maior ou menor medida. Apenas desconfie quando a sanidade dói. Não importa se o seu normal foi ser médica, casar e ter dois filhos (necessariamente nessa ordem) ou foi morar por três meses em cada lugar do mundo, construir casas para desabrigados e vender orgânicos na feira (não necessariamente nesta ordem). Os quadrados de cada um têm perímetros diferentes, limites mais ou menos permeáveis, fronteiras mais ou menos elásticas. Mas quando se afastar desse centro é aterrorizante, pode acender o sinal de alerta. Desconfie quando a sanidade dói. Se está doendo, tem algo errado. Mas em vez de tomar anestésico, tome consciência.  


24 abril 2015

Pare e respire #12 - ciclos

Eu costumava dizer que quando eu era “jovem” meu corpo não sentia nada. Aprendi que menstruação – essa palavra pouco falada e pouco vivida apesar de fazer parte da vida de todas as mulheres - era apenas um percalço, um incômodo de três dias para o qual não se devia dar grande atenção. Hoje, quando ela chega, as pernas pesam, as costas doem, o corpo pede um outro ritmo. E eu dou. Acho que o corpo sempre pediu um outro ritmo, mas eu não tinha ouvidos para ouvir. Ou tempo para dar. Estava muito ocupada me tornando quem eu sou, escavando os espaços do lado de fora que me permitiriam ser gente do lado de dentro. Estava sempre correndo em um movimento contínuo, meio atordoada, meio excitada por tanta reviravolta e loucura no mundo. Eu não tinha tempo de ouvir o meu corpo pedir calma. Mas agora eu tenho. Porque depois de olhar o mundo lá fora e levar os anos que todo mundo leva para entender que correr demais só vai te atrasar para o encontro consigo mesma, eu parei para ouvir o meu corpo pedindo pernas pro ar, ritmo mais lento, sono mais profundo, horas de ócio não necessariamente criativo e certamente nada produtivo.


Eu tenho a sorte de ter nascido fêmea (essa outra palavra pouco falada e pouco vivida apesar de fazer parte da vida de todas as mulheres). E fêmea tem ciclos. E precisa aprender a seguir esses ciclos e suas demandas, entender o tempo das coisas e do ser. A hora de se recolher pode ser a mais difícil. É um aprendizado longo, mas valioso, esse de entender o nosso ritmo, o nosso corpo, e deixá-lo se manifestar de uma maneira própria em um mundo que padroniza o que pode, e o que não se encaixa é deixado à margem – vira marginal.


Guardo com carinho a lembrança do dia em que recebi um poema da Marina Colasanti* em um papel colorido há mais de 20 anos. Pela primeira vez eu conhecia alguém que enxergava beleza e poesia na menstruação. O que eu senti não foi um estalo, um insight, mas algo que percebo hoje como o início de uma longa jornada de reconhecimento de mim mesma como mulher, uma fêmea com seus ciclos. Hoje meu feminino fala e eu escuto. Às vezes quero me fazer de surda, às vezes ponho outra música por cima para abafar o que está sendo dito, mas no fim me rendo a mim mesma e ouço com inteireza as verdades do corpo de uma mulher que, agora eu sei, sempre achou bonito menstruar.


*Eu Sou uma Mulher - Marina Colasanti
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar
Os homens vertem sangue
por doença
sangria
ou por punhal cravado,
rubra urgência
a estancar
trancar
no escuro emaranhado
das artérias.
Em nós
o sangue aflora
como fonte
no côncavo do corpo
olho-d'água escarlate
encharcado cetim
que escorre
em fio.
Nosso sangue se dá
de mão beijada
se entrega ao tempo
como chuva ou vento.
O sangue masculino
tinge as armas e
o mar
empapa o chão
dos campos de batalha
respinga nas bandeiras
mancha a história.
O nosso vai colhido
em brancos panos
escorre sobre as coxas
benze o leito
manso sangrar sem grito
que anuncia
a ciranda da fêmea.
Eu sou uma mulher
que sempre achou bonito
menstruar.
Pois há um sangue
que corre para a Morte.
E o nosso
que se entrega para a Lua.

16 abril 2015

Presente de mãe

Lembra quando as cartas eram o principal meio de comunicação com quem estava longe? Segundo a minha filha, coisas da Idade Média! Lembra da ansiedade quando o correio chegava e a gente aflita, esperando carta da amiga, do namorado? Ah, as cartas de amor... um capítulo à parte! Hoje em dia alegria pelo correio vem apenas quando recebemos algo que compramos na internet, mas aquela alegria desinteressada, que colocava um sorriso no rosto e leveza no coração quase não existe mais.


Há uns meses recebi um cartão da Coreia. Que surpresa deliciosa encontrá-lo na caixa de correio! Me vi outra vez com 14 anos, abrindo avidamente as cartas das amigas que moravam espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, já adivinhando pelo tipo de letra de quem era a carta antes de olhar o remetente. Hoje até temos uma proximidade maior por causa da tecnologia, mas a delícia de receber uma carta escrita à mão... essa nenhuma tecnologia supera!

Dá pra acreditar na lindeza desse cartão?
E o que essa história toda tem a ver com mãe? Tudo ou nada! Depende de você! Se eu pudesse sugerir um - e apenas um -  presente para o dia das mães certamente seria uma carta escrita à mão e enviada pelo correio, independente se você mora perto ou longe. Imagine a surpresa, a alegria e a emoção da sua mãe com esse gesto tão simples, mas ao mesmo tempo tão inesperado! Além disso, escrever é um exercício delicioso que exige de nós habilidades que o teclado não prevê. Para escrever no papel é preciso pensar a frase completa, desacelerar, refletir. É um outro modus operandi pelo qual me sinto irremediavelmente atraída.

Talvez palavras escritas não sejam a sua praia, mas um cartão escolhido com cuidado com três ou quatro palavras de amor já dão conta do recado, garanto! Tive o prazer de enviar um cartão para a minha mãe na Páscoa e receber lágrimas de alegria de presente.

Se você aceitar a sugestão, não esqueça de me contar como foi!


PS: A família desembarca hoje por aqui, então é provável que eu dê uma sumidinha do mundo virtual. Isso significa que estou vivendo intensamente lindos momentos e criando novas memórias. Até breve!



10 abril 2015

Pare e respire #11: Escolha (ser) bonita

"A beleza não é algo que eu posso adquirir ou consumir, é algo que eu apenas tenho que SER". Fiquei tocada por essa frase da atriz Lupita Nyong'o (de 12 Anos de Escravidão) no mesmo discurso em que conta como passou a infância e adolescência pedindo a Deus para tornar sua pele mais clara. 

A beleza é esse tópico com que nos deparamos todos os dias. Está nas revistas, nas propagandas, nas redes sociais e no espelho. Para algumas mulheres há uma dissociação entre ser quem se é e a beleza. Sou de uma geração criada para ser o que bem entendesse: inteligente, descolada, independente, ocupando seu lugar no mundo. Podíamos ser tudo, menos o estereótipo da bonitinha sem nada na cabeça! Demorou um bom tempo para essa geração integrar esses dois lados e começar a se permitir ser inteligente, descolada, ocupar seu lugar no mundo e ser bonita. Demorou porque ninguém nos disse que ser bonita era uma escolha e que ela não reduzia nossas chances de alcançar todo o resto.


Aprendemos desde cedo a admirar a beleza em outras mulheres, mas muito tarde a encontrar a beleza em nós mesmas.  Muitas vezes recorremos ao outro para validá-la, mas se a nossa beleza não for legitimada por nós ela simplesmente não floresce, não tem espaço e não se encontra na nossa expressão no mundo, mesmo que todos a corroborem. 

O que me deu certeza de que hoje era o dia de falar de beleza foi que depois de assistir ao discurso da Lupita Nyong'o, me caiu no colo a nova campanha da Dove, que sabe nos estimular a valorizar a nossa própria beleza como ninguém! Foram colocadas placas que diziam "bonita" e "comum" nas portas de entrada de shoppings em cinco cidades: Londres, São Paulo, Delhi, Shanghai e San Francisco. As mulheres - apenas elas -  tinham que escolher por qual porta entrar. O filme é emocionante e sua grande reflexão é perceber os ideais de beleza que temos nos imposto como mulheres. Sim, nós mesmas! Assista e depois me conte qual porta você escolheria!








07 abril 2015

Para Roma com amor

Bom dia, gente querida! Espero que sua Páscoa e feriado tenham sido repletos de muita alegria por aí. Por aqui não teve tradição familiar, mas tradição não faltou, uma vez que fomos à Roma e esta é uma celebração vivida intensamente por lá.


Diz-se que em Roma não se planta uma flor sem que se descubra uma civilização, e é exatamente esta a sensação que temos. A cidade sob os olhos (ou mesmo sua parte invisível) é grandiosa e caótica, a representação perfeita da humanidade em seus grandes feitos e em suas grandes tragédias. Ali temos a beleza, a arte, a engenharia espetacular e imponente, pompa, luxo e glória. E também inveja, mesquinharia, sedução, traição, ambição desmedida, orgulho, todo e qualquer defeito absolutamente humano. Tudo ali à vista,  lembrando-nos onde podemos chegar como seres humanos para o bem e para o mal. 


Os grandes nomes e seus grandes feitos estão por todos os lados, mas o que realmente me fascina são as histórias anônimas, as pessoas que não entraram para os livros mas que também fizeram parte da história. Os dozes mil escravos que vieram do Egito para construir o Coliseu, os gladiadores que morreram nas arenas, os servos que cuidaram dos nobres senadores...Gosto de imaginar a vida das pessoas comuns há dois mil anos. Imaginar seus dilemas e suas paixões, seus trabalhos e  medos, seus anseios e dúvidas, e pensar como tudo mudou. E pensar como nada mudou!


Mas claro que não só de deslumbramento e reflexões se faz uma viagem, especialmente à Itália. Tem comida boa, tem museu, tem trânsito caótico, tem italiano cantado no ouvido, tem comida boa, tem religiosidade, tem semelhança com o Brasil, tem romance, tem gentileza, tem capuccino e, claro, tem comida boa! 





Tenha uma ótima semana!
Arrivederci!




31 março 2015

O que fazer na segunda à tarde

“Todo mundo aprendeu a abrir o e-mail no domingo à noite e adiantar o trabalho da semana, mas ninguém aprendeu a ir ao cinema na segunda à tarde”, diz o palestrante.

A maioria de nós cresceu vendo nossos pais trabalharem muito e por vezes seguimos nessa mesma espiral sem nem perceber (ou questionar). Quando demos por nós já estávamos lá, totalmente emaranhados na famosa falta de tempo. E mesmo quando se consegue gerir essa tal entidade, “o tempo”, de uma maneira mais equilibrada, a sensação de não estar sendo produtivo permanece. Cinema na segunda à tarde? Almoço com a amiga na quarta? Passeio no parque na quinta de manhã? Isso é coisa de quem não tem o que fazer!

Mas qual é mesmo o problema de não ter o que fazer?



Estar ocupado, correndo e “produtivo” tornou-se um valor intrínseco do nosso modo de vida. Ele é tão incrustado no nosso cotidiano que traz uma sensação de pertencimento. Não importa se trabalha fora ou não, se mora perto do trabalho ou não, se tem filhos ou não; ninguém tem tempo, nem para si, nem para o outro. E, se a pessoa não está nesta roda-vida, pode se sentir excluída, um pouquinho de fora do circuito da humanidade. Em alguns, gera até depressão! O desejo por tempo está no nosso imaginário, mas quando se torna real pode ser assustador em alguns níveis.

Criar tempo é um aprendizado. Usufruir dele é uma tarefa ainda maior. Consiste em questionar a normalidade de se estar fechado em um escritório enquanto o sol brilha lá fora, ou de comer um café da manhã em cinco minutos ou de estar preso no trânsito por duas horas todos os dias. Consiste em não ter medo de não pertencer a esse cenário, em ser exceção e ainda assim se sentir produtivo, criativo e pleno, mesmo optando por ir ao cinema na segunda à tarde.

E essa pode parecer conversa para alguns poucos felizardos que tem essa possibilidade de escolha, mas a verdade é que as escolhas estão diante de nós o tempo todo. E mesmo que eu tenha escolhido estar no escritório de segunda à sexta de 8h às 6h, ainda tenho poder sobre as 128 horas restantes da semana. Poder para fazer tudo ou nada! Poder para realizar sonhos para os quais certamente eu encontraria tempo se tivesse apenas seis meses de vida. Mas quem é que sabe se eu não tenho apenas seis meses de vida?

Escolho olhar o tempo como esse enorme aliado que me presenteia todos os dias com horas inteiramente minhas e que usufruo sem culpa ou constrangimento. E você?



A excelente palestra do Ricardo Semler (com legendas em português) você encontra aqui.


23 março 2015

Inspiração para a semana - 50 mil tons de realidade

Você sabia que grande parte dos cientistas acredita que na antiguidade não existia a palavra "azul"? E que por isso o azul não era visto por essas pessoas? E que nos dias atuais existe uma tribo na Namíbia em que ainda não existe esta palavra e eles não conseguem diferenciar o azul do verde? E que, por outro lado, esta mesma tribo utiliza várias palavras para diversos de tons de verde e, portanto, conseguem perceber variações neste tom que nós não podemos captar?

Arara ou mulher? Foto: Johannes Stotter
Nossa percepção está confinada  pelos nossos sentidos, um filtro poderoso da realidade. Basta dizer que se pudéssemos colocar tudo o que enxergamos em um fração em que o denominador fosse a infinidade de ondas que existem (eletromagnéticas, ultravioleta, etc), a proporção do que vemos é de 1 para 10 trilhões. 1/10.000.000.000.000. Este é o tamanho da nossa precisão sobre o universo! E ainda nem falei das nuances culturais!

Folha ou pintura? Foto: Johannes Stotter
Esta imagem do quão ínfima é a nossa percepção pode ser extremamente poderosa . Quando estamos cheios de certezas, totalmente embuídos de nós mesmos, ela é um lembrete de que a vida é mais do que vemos. E quando estamos cheios de dúvidas, nos sentindo encurralados e sem saber qual caminho seguir... ela é um lembrete de que a vida é mais do que vemos! 

A realidade tem muitos tons, muitas vezes imperceptíveis aos nossos olhos, ou ao que faz sentido para nós, mas nem por isso menos válidos ou reais. E, se não podemos abarcar toda a sua complexidade, que ao menos estejamos abertos ao fato de que existem gradações e que outros têm direito a vivenciar o mundo em outros tons. 

Uma semana colorida para você!





As informações científicas do início do texto podem ser vistas aqui e aqui (em inglês).

16 março 2015

De que lado você está?

O Brasil acorda hoje de uma maneira diferente e eu, aqui de longe, mas com o coração pertinho, apenas observo.  
Tem gente dizendo que o país finalmente acordou, tem gente comparando com a marcha da "família, com Deus, pela liberdade". Tem gente pedindo impeachment, tem gente pedindo intervenção militar, tem gente arrancando os cabelos, tem gente vendendo camiseta e água e garantindo um bom extra para esse mês.
E depois temos os bastidores, o making of por assim dizer. Temos vozes de ponderação, vozes que levam a uma verdadeira reflexão mesmo que não se concorde com elas mas, infelizmente, elas são minoria. As nuances que colocaram quase dois milhões de pessoas nas ruas incluem não apenas um ou outro confronto com a polícia e xingamentos no meio da rua, mas amigos de longa data trocando insultos reais, famílias discutindo ao ponto de magoarem-se uns aos outros verdadeiramente. O país parece bipolarizado e a pergunta intrínseca a todas as discussões é: de que lado você está?



Para mim, a única resposta possível é "do mesmo lado". Você, que disse que essa é uma marcha elitista; você, que organizou cartazes e distribuiu entre os seus amigos; você, que teve taquicardia ao ver pedidos de intervenção militar e você, que fez esse pedido. Estamos do mesmo lado. Você, que se preocupa que as pessoas estejam sendo manipuladas; você, que não aguenta mais os aumentos de impostos; você, que comparou as pessoas que foram às ruas aos desfiles da SS nazista (sim, eu li isso) e você, que chama um grande amigo de acéfalo por ter votado na atual presidente (sim, eu também li isso). Mesmo lado.

Difícil de acreditar mas, sim, estamos do mesmo lado. Estamos todos em busca de um país melhor, de uma vida digna, de crescimento, de que esse país exerça em sua plenitude o potencial inacreditável que todos sabemos que ele tem. Estamos do mesmo lado em busca de um futuro diferente do que se apresenta agora. Cada um acredita em um caminho diferente, e isso é tão natural quanto a enorme diversidade de pessoas que formam esse imenso e belo caldeirão que é o Brasil.  
 Nestes momentos críticos as paixões afloram, as vozes se exaltam e muitas vezes desatamos laços ou formamos nós que são difíceis de reverter. Talvez uma pitada de ponderação seja o suficiente. Aprender a defender nosso ponto de vista sem agredir o outro pode ser um grande aprendizado. Eu escolho estar do mesmo lado. E repito a frase engraçadinha desses últimos dias que mais me representa: Esquerda, direita? Eu quero é ir pra frente!



12 março 2015

Janela aberta

O primeiro dia em que é possível deixar as janelas abertas após o inverno deveria ser marcado antecipadamente no calendário. Deveria ser dia em que a casa acorda lenta e feliz, a algazarra na cozinha começa cedo, a família e os amigos vão chegando carregados de sorrisos e afeto, os cheiros nos fazem suspirar pelo almoço que seguirá sob o sol da primavera que se anuncia.


Mas, como grande parte das boas surpresas da vida, não é possível se preparar para este dia, e talvez por isso mesmo ele possa se tornar uma experiência tão particular e intensa. Depois de meses, um calor inesperado tomas as ruas e o ar renovado invade a casa, varre a penumbra e as velhas ideias. As cortinas levantam breve voo trazendo um bailado envolvente para a sala de jantar. As portas batem com o vento, como que espantando velhos fantasmas. O desejo pelo novo começa a nascer, tímido mas consistente. É como se fosse novamente o primeiro dia do ano, o dia em que todos os sonhos são possíveis. Novos cheiros, novos sons, novas possibilidades, novas maneiras de (con)viver e existir parecem estar ao alcance da mão. O novo está lá fora por toda parte e é nossa escolha permitirmos que ele se manifeste aqui dentro. Basta abrir a janela.


18 dezembro 2014

Natal é (estar) presente


O Natal começa oficialmente hoje aqui em casa! Sabe aquela antecipação boa do que vamos viver? Pois é, por aqui começa hoje com as malas sendo arrumadas para passar o Natal com a família, desejos de comer delícias como a cocada que só a minha sogra faz, imaginar minha mãe colocando os presentes embaixo da árvore com os olhinhos brilhando igual criança, o riso fácil que vem perante a mesa farta de comida e amor, a tarde do dia 24 sozinha embalando os presentes (minha tradição pessoal que amo!) . A expectativa de viver esses momentos já é parte do meu Natal!



Por coincidência (se é que elas existem!) ontem à noite recebi um envelope com tatuagens temporárias que servem como pequenos lembretes e têm o sugestivo nome de "intention tattoos", só para não ficarmos tentados a esquecer o que é verdadeiramente importante. E como ultimamente o meu mantra tem sido estar verdadeiramente presente, não tive nem dúvida de qual usar primeiro. 



E para estar verdadeiramente presente no “mundo real” segue-se uma nova pausa no mundo virtual, com desejos a todos que passam por aqui de encontros significativos, abraços calorosos, esperanças renovadas e aquela sensação quentinha que temos por dentro quando temos plena consciência do quão mágico, especial e importante é tudo que estamos vivendo.


Feliz Natal Presente pra você!

08 dezembro 2014

Atalhos para o lugar-comum

Há imensos atalhos para o lugar-comum.  A frase trombou em mim durante o meu passeio de domingo. Sempre gostei dessas pequenas intervenções nos muros da cidade. Pequenos respiros que nos tiram do automático e nos fazem refletir (ou sorrir), mesmo que apenas por um instante.

Lugar-comum é o clichê, é o caminho mais percorrido, as expressões repetidas milhões de vezes até perderem seu sentido original e virarem banais. Nós os criamos e depois tentamos desesperadamente fugir deles, num esforço contínuo para nos diferenciarmos dos 7 bilhões de outros iguais que nos cercam. O que não percebemos é que esta necessidade de diferenciação não nos é singular, mas justamente uma das coisas que nos conecta a esses 7 bilhões de outros.


Queremos vidas excepcionais, únicas! Vidas que tenham significado e, especialmente, reconhecimento. Esta busca se tornou tão universal que, vejam só, ela se tornou o lugar-comum! O mundo está cheio de vidas extraordinárias e de grandes feitos. Para mim, a vida verdadeiramente invulgar está em quem banca sonhos por uma vida mais ordinária. Em quem busca rotina, simplicidade, momentos, tempo... coisas absolutamente ordinárias, mas que andam tão em falta que ganharam contornos especiais. Se você já teve a oportunidade de conhecer intimamente alguém que admirava muito, seja um escritor, artista ou profissional da sua área, sabe que a queda do pedestal que o colocamos é quase inevitável. Porque somos todos feitos de uma mesma matéria, a imperfeição, mas nossos olhos insistem em julgar os outros pelos seus feitos externos enquanto julgamos a nós mesmos pela bagunça interna que sabemos ser.

Um olhar generoso para a vida ordinária transforma em herói o jornaleiro que nos recebe todos os dias com um sorriso aberto, mesmo nas madrugadas mais geladas, ou o senhor de corre meio quarteirão atrás de uma senhora para devolver um cachecol que ela deixou cair, ou o amigo que nos ouve sem julgamentos e sem interrupções, ou o abraço de alguém não tão próximo no exato momento em que estávamos precisando, ou o marido que sai com as crianças para que a esposa possa estudar em paz. São pessoas que enxergam o outro e fazem do mundo um lugar mais simples e melhor. Mas enxergar o outro cotidianamente não deveria ser o normal, o usual, o ordinário?

Há imensos atalhos para o lugar-comum, para um lugar singular há apenas um: o caminho pessoal que escolhemos trilhar a despeito dos outros 7 bilhões.


Que você tenha uma semana absolutamente ordinária e ainda assim única!


03 dezembro 2014

Pare e respire #10

Aqui em Lisboa as folhas se espalham pelo chão, colorem a cidade em seus tons outonais e marcam a passagem do tempo. Brasileira que sou, acho interessante estar em um país com as estações marcadas. É como se a natureza me mandasse pequenos lembretes de que o tempo está passando e de que cada época tem sua própria beleza e ritmo.

Outono sem filtro


E assim, ninguém sabe exatamente como aconteceu, já estamos em dezembro! E com ele chega uma das épocas mais corridas do ano. Por algum motivo que ainda não consegui compreender, transformamos um momento único de celebração em uma quantidade enorme de afazeres: eventos que temos que ir, presentes que temos que comprar, pessoas que temos que ver;  tudo isso misturado com os eventos que queremos ir, os presentes que queremos comprar e as pessoas que queremos ver. Não é à toa que este mês tem se transformado em uma grande fonte de estresse!

Como tudo nessa vida, estamos falando de escolhas. Escolhas entre agradar pessoas ou nos doar em uma conversa verdadeira com alguém importante para nós. Gastar meu tempo em filas intermináveis no shopping ou fazer uma caminhada com a minha mãe. Participar de mais um amigo oculto quase imposto no trabalho ou chamar antigos amigos para um café.  Cozinhar algo super trabalhoso apenas porque é tradicional ou cozinhar o que eu gosto (e talvez criar uma tradição nova). Escolhas...e prioridades! Se não nos acostumamos a olhar para elas com sinceridade e firmeza durante o ano todo, talvez não seja tão fácil começar em dezembro.




Para isso me serve a onipresença do outono para onde quer que eu vá! Para me lembrar do tempo das coisas, de que há sempre recomeços e ciclos, outras oportunidades de fazer o que não é tão importante assim, mas talvez nenhuma outra oportunidade de fazer o que realmente importa. Para mim, no momento, o que realmente importa é doar meu tempo e presença em encontros significativos. E para você?

01 dezembro 2014

Recomeços


Eu não pensei que ficaria tanto tempo sem vir aqui! Mas esses meses foram necessários para colocar a vida em ordem depois de mudar de país, mobiliar casa, matricular filho em escola que eles não conhecem a língua, entrar na rotina, caminhar, respirar o ar desse novo lugar, me sentir moradora, encontrar sentido e alegria no cotidiano, observar as folhas caindo, fazer dever de casa junto, escolher usar meus pés como principal meio de transporte, pendurar quadros...


Foi o tempo necessário para voltar a me sentir eu mesma, em casa na minha própria pele, grata por toda a vida que me cerca. Agora que eu posso novamente ser eu, posso estar novamente aqui, neste espaço dentro-fora em que me comunico com o mundo inteiro da minha sala de jantar.

Confesso que houve ainda um outro motivo que me fez demorar ainda mais: nesta nova vida ainda não houve espaço para embalagens, portanto não fazia sentido para mim retomar o blog sem ter algo relevante para mostrar. Mas, com a saudade apertando, percebi que o Le Paquet nunca foi apenas sobre pacotinhos bonitos, mas um espaço de compartilhamento, de ideias por uma vida mais simple e até de um olhar generoso para o mundo. E disso definitivamente eu estava precisando! Então, como menos embalagens criativas mas com mais vida simples, como está escrito lá em cima, posso dizer que é muito bom estar de volta! 


05 maio 2014

Inspiração para a semana

Quase todas as pessoas que trabalham com processos criativos em algum momento se perguntam porque exatamente estão fazendo aquilo. Afinal, com tantos músicos, escritores, pintores, fotógrafos maravilhosos no mundo porque alguém iria ouvir, ler, admirar o que “eu” faço?

O fato é que quem cria necessita dessa expressão. Não conheço ninguém que escreve porque quer. Todo mundo escreve porque precisa. Precisa se expressar, precisa colocar essa energia para fora, precisa desse espaço que é onde seu ser verdadeiramente respira. Precisa, precisa, precisa. É algo profundo que as move, essa necessidade de expressão. Está na pele, está na alma e precisa sair de alguma maneira. Mas depois segue a necessidade de reconhecimento. E a dualidade que colocar sua expressão ao escrutínio de outros. O medo de ser criticado, e para alguns, até o medo de ser amado, medo de “dar certo”.  


Então vem a racionalização: por que as pessoas leriam mais um livro bobo de amor? Por que ouviriam mais uma música melosa? Por que entrariam exatamente no meu blog quando há milhares de outros semelhantes e mais interessantes por aí?

A resposta é simples e você já a conhece porque é um velho clichê que não deixa de ser verdade: porque você é único. Sua expressão é única. Talvez ela alcance muitas pessoas, talvez poucas. Mas reflita sobre o seguinte: se uma pessoa for tocada por suas palavras, pela sua arte, uma única pessoa em todo o universo, já vai ter valido a pena?  Geralmente a resposta que recebo para essa pergunta é sim. O que normalmente não se percebe é que essa pessoa, essa única pessoa que talvez seja tocado pelo que você fez já existe. Você já foi tocado! Você foi transformado pelo que você produziu. Isso significa que já valeu a pena!

Uma amiga escreveu um romance que conta uma história de amor. O fato de escrever uma história de 300 páginas a transformou, abriu sua mente para outras percepções e sentimentos, fez com que ela enxergasse suas capacidades de uma nova maneira.  Em seguida, eu li sua história, me surpreendi com sua narrativa, com sua capacidade de construir um fio tão coerente por tantas páginas. O fato de que ela teve a audácia de seguir adiante nesse projeto me impressionou. Já somos duas pessoas tocadas por este livro. Duas pessoa  que já não são as mesmas porque esse livro foi escrito. Para mim, já é motivo suficiente para que ele exista. O fato de que você leu esse texto até aqui é motivo suficiente para que eu o escreva. E volte a escrever amanhã e depois e depois.

Seu trabalho criativo, qualquer que seja ele, merece estar no mundo! Merece ser visto, lido, admirado, entendido (ou não). O que você faz transforma você, e isso faz diferença no mundo. Então, em última instância, o que você faz transforma o mundo. Ponto.


Tenha uma semana transformadora!


PS: Se quiser conhecer o livro a que me referi e se inspirar numa linda história de amor escrita por alguém de carne e osso como você e eu, clique aqui e aqui.

16 abril 2014

Pare e respire #9

Debaixo d'água tudo era mais bonito                                                                           
Mais azul, mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar
Todo dia

Tenho ouvido muito a música Debaixo d’água (de Arnaldo Antunes na voz inigualável de Maria Bethânia) em vídeos de partos que acompanho. A letra realmente casa perfeitamente com esse momento do nascimento, com um bebê que sai da barriga da mãe e vem respirar aqui nesse mundo. Ela me faz pensar no bebê no ventre da mãe, em perfeita harmonia, em condições ótimas de temperatura e pressão, crescendo e se nutrindo sem ter que passar por nenhuma necessidade. Me faz pensar que nenhum ser em sã consciência desejaria sair daquele conforto eterno para enfrentar o mundo aqui fora, mas é isso que acontece, e é o que precisa acontecer, pois a partir de um dado momento esse espaço já não será tão confortável assim, podendo até se tornar prejudicial.


Mas também me faz pensar na trajetória de todos nós, adultos que habitam esse planeta em que é preciso respirar. Todos nós tivemos nossa cota de decepções, frustrações e traumas em maior ou menos grau. E todos tivemos que nos adaptar, utilizar recursos que nos fizessem ultrapassar essas questões para que estivéssemos aqui hoje. Nos adaptamos e criamos ferramentas que serviram a essa adaptação. Parabéns! Essa é a história de um vencedor! O problema começa quando continuamos fazendo uso desses recursos quando já não precisamos deles. Já não é necessário se proteger, se fechar, parecer forte, mas é assim que continuamos a nos comportar como se essa fosse a única forma possível de sobreviver.

Fazemos isso porque essa situação traz conforto. Por mais difícil que seja, ela já é conhecida, familiar e nos dá segurança. A segurança do mundinho que criamos é maravilhosa. Lá é lindo, eu conheço tudo, eu criei tudo! Mas eu tenho que respirar. Todo dia. Se não fizer isso, meu mundinho lindo vai começar a me sufocar. Então, preciso dar espaço para o novo, olhar ao redor, encontrar pessoas, conhecer lugares, correr riscos... viver!



Mas a vida nesse planeta em que precisamos respirar não favorece nada disso. Ela nos diz que o normal é correr do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Ela nos diz que natural é dedicar muito tempo a ganhar dinheiro e pouco tempo cuidando de nós mesmos. Ela nos diz que o usual é não ter mais tempo para os amigos após uma certa idade. Até o dia em que percebemos que nesse mundinho que funciona tão bem não conseguimos respirar.

Respirar pode ser corresponder ao sorriso de um estranho, criar oportunidade para um velho amigo se reaproximar, aprender uma língua “inútil” só porque foi nosso sonho de infância, aceitar aquele convite que talvez seja um programa de índio, mas que também pode se revelar uma fonte de encantamento, ouvir alguém com uma visão de vida diametralmente oposta à nossa, dar uma chance a um novo hábito, um novo estilo de vida, um novo modo de encarar as coisas. Não importa o que seja, basta apenas coragem para sair por um tempinho do nosso mundo azul e colorido e respirar. Todo dia.

Fotos: Alicia Bock

02 abril 2014

Perder-se também é caminho

Algumas pessoas sabem desde pequenas o que querem fazer da vida. Parece que já nascem prontas. Não me refiro apenas àqueles que, aos quatro anos de idade, dizem que vão ser médicos e, de fato, se tornam médicos, mas a todos aqueles para quem parece que a vida flui fácil e segue o rumo que eles determinaram. Aqueles que não têm dúvida sobre o vestibular, ou sobre casar, ou ter filhos, ou aceitar um emprego. Tudo parece parte da ordem natural das coisas.



Preciso confessar que esse tipo de gente me assusta. Obviamente sei que ninguém é cheio de certeza o tempo inteiro, mas o fato é que alguns carregam bem mais certezas que outros. Eu sou do time que carrega menos. E ainda digo mais: eu gosto dessa condição. A falta de certeza, para mim, não se traduz em falta de confiança, firmeza ou estabilidade. A despeito dela, ou talvez por causa dela, continuo tomando decisões e seguindo rumos inesperados na vida.

Vou mudar de país e a pergunta recorrente é: É pra sempre? Diante dessa pergunta me vejo pensando: pra sempre é tanto, tanto tempo! Como posso saber, como ter certeza? Mas ainda assim me mudo. Ainda assim me caso, estudo, canto, escrevo, arrisco. Acho que no fundo me identifico com a incerteza. Tê-la como companheira de jornada me dá alento.

Fui verificar e um dos sinônimos de certeza é infalibilidade. Talvez esteja aí o x da questão. Eu não tenho fantasias de infalibilidade. Sou fã desse processo em que seguimos e erramos, reconhecemos e voltamos, ou pegamos um atalho que vai dar inesperadamente no lado oposto. Não gosto de caminhos pré-definidos. Amo mesmo é a frase de Clarice Lispector: perder-se também é caminho.

Agora, senta aqui e me conta, como é tudo isso para você?


31 março 2014

Inspiração para a semana - Quem é você?


Ao comentar com um conhecido sobre um curso que  estava fazendo que nada tem a ver com meu trabalho, ele comentou “você tem muitas facetas”! Minha resposta foi: “não temos todos”? 


Sempre me intrigou que a pergunta inicial quando queremos conhecer alguém fosse relativa à profissão, como se isso nos definisse mais precisamente do que outros aspectos da nossa vida ou personalidade. O interessante é que muitas pessoas detestam sua profissão, seu trabalho e tudo relacionado a isso, mas continuamos nos apresentando com esse rótulo. Por que não podemos ser apenas admiradores da natureza, fotógrafos amadores, leitores vorazes, apreciadores de comidas deliciosas, cantores de coral? Será que nossos hobbies, nosso sonhos, aquilo que amamos e admiramos na vida não definem melhor quem nós somos, não ensinam mais de nós a quem está interessado em nos conhecer?
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